Quem decide o que importa?
O que o Aleph de Borges revela sobre informação, evidência e o poder de selecionar
Whats Neyven
Imagine que, amanhã, você pudesse consultar todos os documentos de uma instituição. Todas as mensagens, planilhas, decisões, justificativas e versões anteriores. Nenhuma gaveta fechada, nenhum arquivo perdido. Quanto tempo levaria para compreender o que aconteceu?
A resposta pode ser: mais do que antes.
O acesso resolveria um problema e abriria outro. Diante de tudo, seria preciso descobrir por onde começar, que registros se referem ao mesmo acontecimento, quais se contradizem, o que é contemporâneo aos fatos e o que apenas repete uma interpretação posterior. A pergunta decisiva deixaria de ser “onde está a informação?” e passaria a ser: por que esta informação importa para o que preciso saber?
Jorge Luis Borges construiu, em El Aleph, uma das imagens mais inquietantes dessa dificuldade. Num porão de Buenos Aires, existe um ponto a partir do qual se pode ver todos os lugares do universo simultaneamente. O narrador contempla o remoto e o íntimo, o extraordinário e o banal. Mas o que lhe aparece de uma só vez precisa ser contado em palavras que vêm uma depois da outra. A linguagem exige ordem onde a visão não a ofereceu.
O conto foi publicado pela primeira vez na revista Sur, em 1945. A Biblioteca Nacional da Argentina o apresenta também como uma história atravessada por literatura, ciência e perda amorosa. Essa pluralidade importa: Borges não escreveu um manual de gestão da informação. A leitura que proponho aqui é uma aproximação entre a sua ficção e um problema contemporâneo, sem reduzir o conto a uma previsão da internet ou da inteligência artificial. [1]
A abundância não escolhe por nós
Carlos Argentino Daneri, personagem do conto, também dispõe do Aleph. Usa a visão da totalidade para compor um poema que pretende dar conta do planeta. O crítico Julio Ortega lê no contraste entre Daneri e o narrador duas maneiras de enfrentar a insuficiência das palavras diante do mundo: a ambição de reproduzir tudo e o reconhecimento de que qualquer relato será parcial. [2]
É tentador rir de Daneri. Mas a sua esperança é familiar. Está presente em cada projeto que promete resolver um problema de julgamento simplesmente reunindo mais registros, acrescentando mais indicadores ou ampliando a capacidade de busca.
Essas capacidades são valiosas. Informações adicionais podem expor uma fraude, revelar uma exceção ignorada, corrigir uma amostra enganosa ou permitir que alguém conteste uma conclusão. O erro começa quando confundimos acesso com compreensão. Encontrar um documento não informa, por si só, o que ele demonstra. Recuperar cem documentos semelhantes não os torna cem fontes independentes. Ver uma anomalia num painel não estabelece a sua causa.
A pesquisa sobre sobrecarga informacional ajuda a formular parte do problema, com cautela. Uma revisão sistemática publicada em Frontiers in Psychology reuniu estudos e propostas de intervenção no contexto do trabalho, mas seus autores registraram que a força das evidências é variável e que faltam avaliações robustas para muitas medidas específicas. Ela não autoriza a regra fácil de que “menos informação produz melhores decisões”. Mostra, sobretudo, que quantidade, tarefa, tempo, organização e modo de apresentação precisam ser considerados juntos. [3]
O desafio, portanto, é conservar a possibilidade de saber mais e, ao mesmo tempo, construir condições para distinguir.
Uma informação só é relevante para alguma pergunta
Considere uma apuração com mensagens, registros de acesso, depoimentos e documentos. Uma mensagem pode ser autêntica e nada esclarecer sobre a conduta investigada. Um registro breve pode contrariar a cronologia que parecia estabelecida. Dois relatos coincidentes podem ter a mesma origem e acrescentar menos confirmação do que aparentam.
Não há como atribuir peso apenas contando páginas. É necessário formular uma proposição concreta — “este ato ocorreu?”, “quem tinha acesso?”, “esta explicação é compatível com os registros?” — e perguntar o que cada elemento permite afirmar, com qual grau de segurança e sob quais limites. A relevância muda quando muda a pergunta. Um documento periférico para uma hipótese pode ser decisivo para outra.
Na auditoria, a mesma distinção aparece diante de uma lista de exceções. Um sistema pode localizar milhares de operações fora de um padrão. O resultado amplia a capacidade de observação; ainda é preciso apurar se o desvio corresponde a erro de cadastro, característica legítima da operação, falha de controle ou sinal de um problema material. Uma seleção responsável explica seus critérios e mantém acessíveis os registros que ficaram fora da síntese.
Também na inteligência artificial há uma diferença entre recuperar fontes e lhes atribuir peso adequado. Uma resposta fluente pode aproximar documentos de datas, naturezas e confiabilidades distintas como se dissessem a mesma coisa. Para a pergunta em exame, um registro original pode valer mais do que várias reproduções; uma fonte recente pode ser indispensável quando o objeto mudou; uma fonte aparentemente autorizada pode não tratar exatamente da questão. A velocidade da síntese torna ainda mais importante perguntar como ela foi construída.
Em todos esses casos, selecionar é inevitável. E é precisamente por ser inevitável que a seleção precisa admitir exame.
O poder mora no filtro
Quem prepara um resumo decide o que alguém verá primeiro. Quem define as categorias de um formulário determina quais diferenças poderão aparecer. Quem escolhe indicadores oferece à organização uma imagem de si mesma — e deixa outras experiências fora do painel.
Nem toda exclusão é indevida. Nenhuma síntese conseguiria carregar o arquivo inteiro. O problema surge quando o filtro se torna invisível, quando uma escolha de apresentação passa a parecer uma propriedade natural dos fatos.
Pense em duas instituições. Uma publica tudo em arquivos que quase ninguém consegue percorrer. A outra oferece uma página impecavelmente clara, mas não permite saber o que foi omitido nem por quê. A primeira entrega acesso com pouca inteligibilidade. A segunda oferece inteligibilidade com pouca possibilidade de contestação.
Uma arquitetura melhor permitiria transitar nos dois sentidos: da pergunta à síntese, da síntese à evidência, da evidência à fonte e da fonte ao seu contexto. Também permitiria o movimento inverso: encontrar no acervo um elemento que obrigue a rever a síntese. A transparência se torna mais útil quando a pessoa pode reconstruir e questionar o caminho da conclusão.
Essa exigência vale para decisões institucionais, mas não termina nelas. Na vida comum, alguém pode conhecer inúmeros fatos sobre outra pessoa e ainda interpretar mal seus motivos. Uma lembrança vívida pode receber mais peso do que merece; um detalhe discreto pode mudar inteiramente o sentido de uma conversa. Nossas interpretações selecionam continuamente. Raramente exibem o critério.
A pergunta que falta ao arquivo
Antes de pedir mais dados, talvez devêssemos fazer quatro perguntas:
- O que estou tentando descobrir ou decidir?
- Que informação, se fosse diferente, poderia mudar minha conclusão?
- Que explicação concorrente os mesmos elementos ainda permitem?
- Como outra pessoa poderá verificar o que selecionei e contestar o que deixei de fora?
As perguntas não fornecem uma fórmula infalível. Impedem, porém, que volume seja tomado como argumento e que uma síntese bem apresentada se proteja da crítica.
Talvez o aspecto mais desconcertante do Aleph seja este: mesmo diante da totalidade, alguém ainda precisa contar uma história. Precisa escolher uma ordem, encontrar palavras e aceitar que outra pessoa poderá perguntar pelo que ficou ausente. Quanto mais amplos se tornam nossos arquivos e instrumentos de busca, maior é a responsabilidade por essa passagem entre o que está disponível e o que se torna visível.
Ver tudo não resolve a pergunta sobre o que importa. Torna mais necessário responder quem escolheu, com que razões e com que possibilidade de revisão.
Referências e nota de leitura
[1] Biblioteca Nacional Mariano Moreno, exposição *Infinita veneración, infinita lástima: 80 años de “El Aleph”*. Contexto da publicação original e das dimensões do conto.
[2] Julio Ortega, “La poética de Borges”, Centro Virtual Cervantes. Interpretação crítica do contraste entre Daneri e o narrador; não é apresentada aqui como a única leitura do conto.
[3] Miriam Arnold, Mascha Goldschmitt e Thomas Rigotti, “Dealing with information overload: a comprehensive review”, *Frontiers in Psychology* (2023). Revisão sistemática voltada ao contexto de trabalho; os autores assinalam limites na robustez de parte das evidências sobre intervenções.